Estaria descrito acima todo o processo que hoje garante renda e dignidade ao trabalhador rural da associação da Pedra Lascada. Mas não é só isso. Ao fazerem a entrega de seus cultivos, os produtores finalizaram um processo iniciado com a conscientização do que é trabalhar sob a perspectiva do associativismo, que passou pelo trabalho conjunto e pela confiança em cada um de seus colegas e líderes da associação, e se concluiu com efetivação da venda ao PAA.
O presidente da associação, Manoelito Vieira Rodrigues, afirma que a parte mais difícil, que seria a conscientização dos trabalhadores quanto ao modelo associativista, tornou-se a mais simples, porque vai além do entendimento de que a Associação da Pedra Lascada mantém um contrato com o governo, de venda de produtos a partir da aprovação de um projeto de aquisição de alimentos, e não sua diretoria.
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“Mais que isso, eles têm o discernimento que eles são a associação, e que eles, enquanto associação, é quem estão vendendo seus produtos ao PAA. E mais: que a diretoria da associação apenas faz o repasse do dinheiro do projeto a cada membro. Portanto, o ideal associativista, aqui, funciona”, garante Manoelito.
Não apenas funciona, como chama a atenção de outros municípios da região sul da Bahia, pelo que apurou a reportagem. No sábado, por exemplo, o ‘ritual’ de entrega dos produtos foi acompanhado pelo secretário municipal de Agricultura e pelo chefe do escritório da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agropecuário em Ibicaraí, Danilo Simões e Bernardino Rocha, respectivamente. Também teve o acompanhamento do chefe do Escritório Local da Comissão Executiva do Plano da lavoura Cacaueira (Ceplac) em Coaraci, José Américo, além da secretária de Agricultura de Barro Preto, Izabella Costa.
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O objetivo de todos, incluindo as autoridades do próprio município de Barro Preto, foi justamente conhecer o modelo utilizado pela Associação da Pedra Lascada, para replicá-lo em suas localidades ou – no caso de Barro Preto, estimular a expansão, quem sabe fomentando a criação de outras associações.
“Vimos aqui mais do que um simples ato de compra e venda. Vimos a efetivação do objeto do PAA, que é garantir renda e dignidade ao trabalhador rural e, na outra ponta, alimento e dignidade aos beneficiários do programa, tudo intermediado por um processo de administração aberto e transparente na Associação da Pedra Lascada. Era possível ver a alegria nos olhos de cada trabalhador ao entregar seus produtos. Com certeza, queremos levar esse modelo para Ibicaraí”, afirma o secretário Danilo Simões
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Exemplos
O sucesso da Associação da Pedra Lascada talvez se explique pelas histórias de vida de seus associados. Como a de sua secretária, Natiele Santana Rodrigues, que sonhava ser advogada e morar na cidade, por ter vergonha de assumir sua origem rural, mas que hoje cursa Agronomia no Instituto Federal de Educação em Uruçuca, antiga Emarc, e dá aulas de compostagem orgânica para os colegas associados, além de ajudar na organização da entidade.
Outro caso que inspira a todos que a conhecem é o da viúva Genilsa Rita dos Santos, 54 anos. Sozinha há 26 anos, ela não tinha onde plantar, e vivia apenas da ajuda de seus filhos, que já não moravam com ela na roça. Quando começou a freqüentar as reuniões da associação, decidiu plantar suas hortas sem, sequer, se importar com o fato de que não possuía terra cultivável, apenas um quintal constituído de pedras. “Carreguei terra de outros locais para fazer as hortas em cima das pedras. Até cenoura já cultivei”.
| Hoje, Genilsa possui pouco mais de meio hectare de terra, doado por um agricultor da região, e sua vida ficou mais fácil. Produz azeite de dendê, corante de urucum, além de hortaliças diversas e aipim. Ou seja, processa matérias-primas e agrega valor ao coco de dendê e ao urucum, entre outros produtos, aumentando sua renda. “Crio dois netos, meus filhos ajudam, mas a venda ao PAA me garante a renda de que preciso para levar uma vida com dignidade, ganhando meu próprio dinheiro”. |
Ceplac
O processo de fortalecimento da Associação da Pedra Lascada tem apoio da Ceplac, órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que é quem garante a assistência técnica e fiscaliza a execução do projeto do PAA. “Acompanhamos a associação no seu dia-a-dia, orientando e ajudando na resolução das demandas, além de garantir assistência técnica rural aos associados, estimulando a diversificação de culturas e a integração com a comunidade local”, afirma o chefe do Escritório Local de Barro Preto, José Carlos Silva Santana.
Jornalista da Sueba - Superintendência da Ceplac na Bahia
Domingos Matos
Domingos Matos
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