sábado, 6 de junho de 2015

A Fiol e o Porto Sul devem ser priorizados, diz Júlio Busato


Júlio, sócio no Grupo Fazenda Busato e pres. da Associação dos Agricultores Irrigantes da Bahia
Intitulado cidadão baiano no último mês de maio, o engenheiro agrônomo e empresário Julio Cézar Busato, nascido há 54 anos no município de Casca, Rio Grande do Sul, chegou à Bahia em 1988 logo após terminar o curso superior. Ao se instalar no estado com sua família, ele arrendou uma fazenda de 880 hectares, no município de São Desidério, Oeste baiano, para realizar a cultura irrigada. Hoje já são 45 mil hectares distribuídos pela região em que o Grupo Busato, formado por Júlio, seu pai e os irmãos Roberto, Marcos e André, cultiva o algodão, milho, soja e feijão. Além do negócio familiar, o empresário ainda administra assuntos sociais, culturais e políticos por meio da presidência da Associação dos Agricultores Irrigantes da Bahia (Aiba), assim como na vice presidência da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abapa) e vice presidência do Instituto PensarAgro.

O que sentiu ao receber o título de cidadão baiano?

Foi gratificante e emocionante. Na verdade já me considerava baiano há muito tempo, de coração e de trabalho, já que estou aqui há 27 anos. É um grande reconhecimento tanto em relação as fazendas, das plantações do Grupo Busato, como também da parte dos trabalhos sociais, que realizamos no Oeste por meio da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba).

Como foi sua trajetória desde que começou a cultivar no Oeste? Quais foram os desafios?

Somos um grupo familiar: pai e quatro irmãos contando comigo. Trabalhamos juntos desde o começo, quando éramos agricultores ainda no Rio Grande do Sul. Depois de me formar em agronomia percebi que precisávamos expandir, foi aí que fui conhecer o Mato Grosso, em 1988, e depois a Bahia. A ideia era fazer agricultura irrigada e percebi que o mercado daqui era maior, que tinha mais possibilidades. Além disso o povo nos acolheu. Há 27 anos era tudo muito diferente, para você ter ideia o município de Luis Eduardo Magalhães era isolado e tinha apenas um posto de gasolina que funcionava no meio do serrado. Hoje tem quase 1oo mil habitantes e é a maior arrecadação do Oeste, sendo o terceiro IDH da Bahia, isso é muito importante. Nessa época, quando chegamos, a região Oeste plantava 200 mil hectares de soja, hoje planta 2.2 milhões de hectares com várias culturas como milho, algodão, café e outras mais. Nós, da família, conseguimos crescer, plantamos mais de 45 mil hectares e geramos mil empregos diretos, que para mim é nosso grande legado. São operadores de máquinas que iniciaram com pequeno trator e hoje operam com máquinas agrícolas, do que tem de melhor no mundo. Foi um ganho muito grande para todos, e que continua crescendo, principalmente com a tecnologia.

Em relação à tecnologia, quais foram os investimentos e o que tem sido usado de mais moderno nas plantações?

Na tecnologia o investimento é enorme. Temos máquinas agrícolas que custam mais de R$ 2 milhões, mas precisamos investir sempre para ficarmos mais produtivos e competitivos. Existe no mercado toda uma tecnologia. Temos agora o Bahia Farm Show, uma feira de tecnologia agrícola e de negócios que apresenta os melhores equipamentos, no município de Luis Eduardo Magalhães. São máquinas que foram lançadas nos EUA e Europa, mas que nós também temos disponíveis para os produtores que querem melhorar a competitividade e a produtividade. É um processo dinâmico que vai acontecendo. O investimento é alto, mas tudo é uma questão se ele se justifica ou não. Se tem retorno tem que ser feito. E normalmente o retorno é em cinco anos, mas tem que ir avançando na competitividade. Os paises não estão esperando. A África, Vietnã e China estão se modernizando, temos que acompanhar e tornar a agricultura eficiente.

Que realidade vive hoje a agricultura baiana, quais os desafios com esse momento da economia?

A agricultura é o terceiro PIB da Bahia. Primeiro é o polo petroquímico, depois a celulose. Mas temos que entender que a agricultura não é só uma questão de dinheiro, é de produzir alimento. Quanto ao momento da economia, a agricultura não é uma ilha e claro que sente, mas não vai impactar tanto porque o mundo precisa de comida. Principalmente na soja os preços devem se manter, no algodão não deve mudar muito, e temos de olhar para o horizonte. O que precisamos ver hoje, urgentemente, é a questão da legislação trabalhista. Estamos perdendo em competitividade. Nossa indústria é em céu aberto e vivemos a sazonalidade. Se não colhermos quando tem de colher, o grão se perde, a fibra apodrece. No nosso caso tem de se entender que quando chove não conseguimos trabalhar e precisamos compensar quando chega a colheita e o tempo é favorável. Temos que fazer a nossa colheita como ocorre na Austrália, EUA e Argentina. Temos que alterar a legislação para permitir que a se possa trabalhar quando pudermos, sem perda do trabalhador. Inclusive, eles estão juntos com a gente, querem a mesma coisa porque querem ganhar mais também. Isso implicaria em trabalhar mais tempo, de 12 a 14 horas. Tem que flexibilizar para o trabalhador da agricultura. Não pode tratar coisas diferente de forma igual. Não temos barracão. Na hora de colher temos que colher e isso nos obriga a ter um numero enorme de máquinas. A agricultura no Brasil, e na Bahia, está produzindo alimentos em quantidade e qualidade e de custo muito baixo quando comparado a outros países. É uma atividade importante que gera emprego e renda. O Brasil não perdeu a capacidade de investir, só esta reduzindo. Um dos grandes problemas que vivemos até hoje, que já começou errado é a questão de transporte e logística, com investimento nessas áreas muita coisa se resolve.

Quais são essas soluções? A construção da Fiol é uma delas?

Com certeza. Prioridade é prioridade e a Ferrovia Oeste-Leste (Fiol) e o Porto Sul devem ser priorizados. Logística e transporte são o grande ponto onde dói para a agricultura da Bahia como um todo. A Fiol deu uma parada, mas ela é de importância vital. A Fiol vai ser um grande corredor de desenvolvimento para toda a região. N ão é só para agricultura, e sim para todo o desenvolvimento da Bahia, é extremamente necessária. Eu, como vice presidente a Abrap e do Instituto PensarAgro, que trabalha com a frente parlamentar da agricultura, vou defender a ferrovia e o Porto Sul, Hidrovia do São Francisco, a Ferrovia Transnordestina e o termino da BR-020, na parte da Bahia que não foi concluída e deveria chegar até Barreiras. Mas felizmente parece que vai ser incluída no PAC III e isso vai melhorar muito. A partir daí, a agricultura do estado será muito mais competitiva, mas é só uma questão de tempo.

Como é dividir o tempo entre tantas atividades, além dos negócios da família?

Eu gostaria mesmo era de estar na minha fazenda produzindo e trabalhando, que é o que gosto de fazer, mas precisamos trabalhar nas questões como a social e ambiental que tem envolvimento no nosso negócio. A Aiba, por exemplo, é muito importante. A associação foi criada para ser um canal de conversa com o governo em todas as esferas: federal, estadual e municipal. Além de difundir tecnologia e conduzir as necessidades dos 13.300 mil associados, em 1,800 milhão de hectares plantados. Estamos fazendo várias ações não só na parte de tecnologia e de produção quanto na parte social e ambiental. Temos trabalhado em vários sentidos, na parte de tecnologia criamos o programa fitossanitário na Bahia, para manejo da Helicoverpa armigera, no ano retrasado. Em parceria com outras associações criamos muitos trabalhos, como com a Secretaria do Meio Ambiente. Precisamos conscientizar também o produtor, que tem que produzir, mas tem que preservar também.

Quais foram os prejuízos com a lagarta nas fazendas? E com a seca? Já superaram os danos?

A cultura carro-chefe do Grupo Busato é o algodão, depois soja, milho e depois feijão. A lagarta no ano retrasado nos causou um grande susto. Era uma praga nova que migrou para o Brasil. Não tínhamos mecanismos de controle porque não conhecíamos a lagarta. Mas as associações foram pesquisando para combater e rapidamente nos unimos e criamos o programa que nos dá segurança para conviver com a praga. Mas o problema é que ela aumenta o custo da produção em US$ 100 na soja e US$ 300 no algodão, mas não tem jeito e agora estamos buscando alternativas para reduzir os custos, já que ela não vai deixar de existir mais. Já em relação à seca, depois de 10 anos, não foi problema de falta de chuva, mas de distribuição. Tivemos perda, mas não foi significativa e a tecnologia e as melhorias que fizemos na fertilização e aumento de matéria orgânica do solo mostrou que em 30 dias conseguimos superar com pequenos danos coisa que ha 20 anos seria um desastre.

Qual é a proporção de exportação e importação dos grãos? por quanto vende para o mercado externo?

A exportação da soja é mais estável, ou seja, 55% é exportada. O algodão depende muito do preço do mercado interno e externo, entra aí a questão do dólar, mas normalmente exportamos 40%. De um total de produção, como caroço de algodão, fibra de algodão, milho e soja, 70% fica no mercado interno. Então fornecemos para o complexo agrícola e suvinícola da Bahia, em Feira de Santana e Vitória da Conquista, e o restante vai para nossos grandes clientes que são Ceará e Pernambuco. Percebe aí a importância da ferrovia e hidrovia do São Francisco? Precisamos disso para a gente transportar sem precisar levar de caminhão, que é um modelo errado para o Brasil. Hoje nosso competidor maior no mercado externo, que é o produtor americano, ele coloca uma tonelada de fibras ou grão por US$ 25 em navio e nós gastamos para colocar uma tonelada de soja, US$ 60. Para uma tonelada de algodão, pelo Porto de Santos, é na faixa de US$ 95. Isso tira a competitividade, já que nosso grande mercado, que é a China, no caso da soja; Indonésia e os asiáticos, no algodão, vão querer comprar de quem vede mais barato, pode ter certeza. Mas temos a felicidade que na Bahia temos produtividade grande de algodão, soja e milho. No caso do algodão produzimos o melhor do mundo, o que dá uma vantagem, mas precisamos melhorar o transporte.

Qual a expectativa para a próxima safra, vai crescer este ano?
Agora as chuvas se encerraram e só voltam a cair em outubro, quando se inicia o próximo plantio. Devemos crescer 1,5% ao ano. Estávamos crescendo 5 % ao ano, mas a partir do ano retrasado avançamos menos. Mas o crescimento vai voltar, sem dúvida Temos mais três milhões e meio de hectares que ainda podem ser cultivados no Oeste do estado. E esse crescimento vai ser respeitando o meio ambiente. Vamos orientar o produtor para que ele esteja legal para poder avançar no plantio. Esses três milhões podem ser usados em termelétrica, pecuária, silvicultura, energia eólica, enfim, tem muita coisa que ainda pode ser explorada. Saiu um trabalho muito bem elaborado pela Embrapa, que mostra as possibilidades de crescimento da Matopiba. Mas é preciso acabar com a falta de infraestrutura, logística e transporte. A partir disso o restante vem a reboque. A Aiba está em 11 municípios, e tem local que não está tão bem, como Jaborandi, Baianópolis, e outros lugares. Essas regiões precisam se desenvolver e a agricultura tem essa capacidade. Se tem uma área que não produz nada e passa a gerar, no caso do algodão, R$ 8 a R$ 9 mil por hectare de geração de renda, é preciso investir mais, com mão de obra, por exemplo. Essa é a grande transformação que a agricultura consegue fazer. Hoje quem desenvolve muito bem a agricultura são as regiões de Sorriso, no Mato Grosso, Rio Verde, em Goias e Barreiras, aqui na Bahia. Temos a oportunidade de terras, temos tecnologia e podemos mais que dobrar nossa produção, mas precisamos de melhoria no transporte, logística e legislação trabalhista.

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