quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Audiência pública debaterá, mais uma vez, a obra da Ferrovia Oeste- Leste em Ilhéus


A subconcessão à iniciativa privada do trecho entre Ilhéus e Caetité da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) será debatida com a sociedade civil organizada e a população, em geral, em audiência pública marcada para o próximo dia 21 de setembro, pela manhã, na cidade de Ilhéus. O anúncio foi feito pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), vinculada ao Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil, na edição desta quarta-feira (29) do Diário Oficial da União.

Audiências – Além da audiência pública presencial em Ilhéus, haverá uma segunda, em Brasília, no dia 25 de setembro. Além das sessões presenciais, será possível enviar contribuições para o plano de concessão, até o dia 15 de outubro de 2018. Todas as informações e orientações sobre os procedimentos relacionados à participação da sociedade civil na audiência pública estão disponíveis no site da ANTT – www.antt.gov.br. Outros esclarecimentos podem ser obtidos por comunicação via e-mail, no ap010_2018@antt.gov.br, ou pelo telefone (61) 3410-1887.

O Governo da Bahia por meio de seu corpo técnico preza pela celeridade do projeto. Os estudos de viabilidade técnica e econômica referentes ao processo de concessão da Fiol foram contratados pelo Estado da Bahia, através de uma licitação pública, e já se encontram aprovados Secretaria Nacional de Transportes Terrestre e Aquaviário.

A Ferrovia Oeste Leste vai ligar Figueirópolis, no Tocantins, ao porto de Ilhéus, com 1.526 km de extensão. O projeto prevê a movimentação de 60 milhões de toneladas de cargas em 10 anos, chegando a 100-120 milhões em 25 anos. Na Bahia, as obras da Fiol são divididas em FIOL 1 (Ilhéus/ Caetité) e FIOL 2 (Caetité/ Barreiras).

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

IGREJA DE SÃO JORGE- ILHÉUS-BA

HISTÓRIA

Foto: Ed Ferreira
A igreja Matriz de São Jorge é uma construção do final do século XVII, de acordo com Instituto de Proteção Artístico Cultural (IPAC), é uma Igreja de relevante interesse histórico e arquitetônico, com nave, capela-mor, corredor e lateral, sacristia e torre, do lado esquerdo. A fachada tem dois corpos, sendo o principal, emoldurado por cunhais e cornija, e vazado por bela portada, ladeada por duas portas, no térreo, e duas janelas ao nível do coro. A torre possui terminação piramidal e coruchéus nos cantos e arco pleno. Os cunhais, as cornijas e as cercaduras de portas, as janelas e as seteiras são em cantaria. No interior possui arco cruzeiro, nichos e bacia de púlpito também em arenito. O forro dos cantos é redondo, na nave, e em abóbada abatida, na capela-mor.
O altar-mor, neoclássico, está incompleto. Entre as imagens da igreja, destacam-se as de São Jorge, um crucifixo, Nossa Senhora do Rosário e São Pedro. Na sacristia e no corredor lateral, utilizado como Museu de Arte Sacra, existem algumas peças de mobiliário; merece destaque a cabeça de santa, São Miguel, Nossa Senhora das Neves (séc. XVI), Santo Antonio, Santo Inácio e São Caetano (séc. XVII), e alfaias de prata. Dados tipológicos: Igreja de construção apurada, originária do final do séc. XVII. São típicas deste período as cercaduras com ressaltos nos cantos e a torre piramidal, utilizada pela primeira vez no Convento de Cairu -Ba (1660).

Cercaduras semelhantes são encontradas em Sta. Tereza, Casa de Oração dos Jesuítas, solares Berquó e Sete Mortes, em Salvador, e na Igreja de São Brás, em Santo Amaro. Outra disposição arcaica está nos dois nichos laterais ao arco cruzeiro, observado também, no Colégio de Olinda, e igrejas de Ajuda e Belém, em Cachoeira.

Este elemento e o apuro da construção sugerem a intervenção de algum arquiteto jesuíta. Histórico arquitetônico, segundo o IPAC (1988, p. 224): Após a chegada dos primeiros portugueses e a fundação da vila de São Jorge, Francisco Romero fixou a povoação no morro de São Sebastião. Em 1556 foi criada a Freguesia de São Jorge por Dom Pero Fernandes Sardinha e uma primeira igreja teve sua construção iniciada pelos primeiros moradores da capitania, mas só foi concluída em 1572. A matriz de São Jorge foi construída após o convento de Cairu, que data de 1660. No início do século XX, para alargamento de uma rua, foi demolida a sacristia direita da igreja. Seu partido primitivo era, portanto, a planta em “T”, característica do mesmo século. A Igreja Matriz de São Jorge pode ser considerada o mais importante monumento histórico localizado na sede do município. O Museu de Arte Sacra, localizado ao lado da igreja, possui peças belíssimas, antigas e raras.

MAIS FATOS HISTÓRICOS DA IGREJA DE SÃO JORGE

Foto: Ed Ferrreira
A Igreja Matriz de São Jorge está situada no centro da cidade de Ilhéus, à rua Antônio Lavigne de Lemos. Sua fachada lateral direita está voltada para a Praça Rui Barbosa, que se abre para o mar. Do alto de sua torre era possível contemplar bela vista panorâmica da cidade, e, um pouco adiante, a Catedral de São Sebastião. Segundo relatório do IPAC, a igreja “tem sua volumetria e ambiência prejudicadas por anexos com telhados de fibrocimento e construções, em volta, de mau gosto” (1988, p. 223).
O belo monumento é do final do século XVII e tem área construída de 670 m2.
Restaurações e intervenções realizadas: entre os anos de 1912 e 1916, no curso das obras de modernização da cidade, empreendidas pela administração municipal do coronel Pessoa, é demolida a Sacristia direita da igreja. Na década de 1950 são construídos, anexos à igreja, um salão com laje de concreto e telhado de fibrocimento. (IPAC, 1988, p. 224).
No início do século, para alargamento de uma rua, foi demolida a sacristia direita da igreja. Seu partido primitivo era, portanto, a planta em “T”, característica do mesmo século. Em meados do século XVIII, a igreja teria sofrido, segundo alguns autores, intervenções em sua fachada. Estas modificações devem ter consistido na construção do atual frontão e na transformação das duas janelas laterais à portada em portas, como ainda hoje restam vestígios. O amplo corredor lateral é da década de 1950.
Em 4 de outubro de 1970 foi colocada uma placa comemorativa da restauração da igreja, com agradecimentos aos donativos de Jerônimo Francisco Ferreira e à orientação técnica e artística do arquiteto Luis Osório Amorim de Carvalho. Durante as obras foram descobertos alguns nichos de cantaria, que estavam tapados.

A Igreja Matriz de São Jorge pode ser considerada o mais importante monumento histórico localizado na sede do município. São Jorge é um dos padroeiros da cidade. A igreja está relativamente bem conservada, são realizadas missas normalmente, mas o clima local costuma danificar com muita facilidade os prédios, exigindo frequentes restaurações. No museu localizado na sacristia da igreja, encontram-se algumas peças antigas de valor, inclusive um São Jorge sem cavalo, fato raro. O Museu de Arte Sacra, localizado ao lado da igreja, possui peças belíssimas, antigas e raras, mas nem sempre fica aberto ao público por falta de segurança.

A Igreja de São Jorge é o mais belo monumento erguido na Vila de São Jorge, no tempo do Brasil Colonial. E o calçamento da rua Antonio Lavigne de Lemos é muito especial.


Fonte: (CRÉDITOS DE A história de São Jorge dos Ilhéus – Maria Luiza Heine)



sexta-feira, 27 de julho de 2018

"Por trás das ‘fake news’ há interesses muito poderosos"

Entrevista.


Foto:José Carlos Carvalho - Jaime Abello
Em entrevista à VISÃO, Jaime Abello, Diretor da Fundação Gabriel García Márquez, fala dos "interesses muito poderosos" por trás das notícias falsas, mas recorda que "a história da condição humana é uma história de luta pela verdade, contra a mentira, a manipulação, os rumores"


É o diretor-geral da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, desde que, em 1995, a fundou juntamente com aquele escritor colombiano, vencedor do Nobel da Literatura de 1982. Na altura em que acabam de se comemorar os 50 anos da publicação de Cem Anos de Solidão, Jaime Abello veio recentemente a Lisboa participar num debate da Fundação José Saramago sobre o legado jornalístico de García Márquez e o futuro do jornalismo.


García Márquez considerava o jornalismo “o melhor ofício do mundo”. Diria o mesmo hoje?

Creio que sim, embora não relativamente à situação salarial ou à segurança laboral, mas no sentido em que o jornalismo é uma vocação de serviço público, que se exerce principalmente através da palavra, das ideias, dos relatos. É uma oportunidade para dar à sociedade uma compreensão de processos e de situações de um modo que também permita ao jornalista ser criativo, atrair o leitor. Para García Márquez foi um ofício fundamental, converteu-o de aprendiz num verdadeiro escritor. Punha-o em contacto com o mundo, permitia-lhe exercitar diariamente a escrita e colocava-o perante a necessidade de produzir de maneira rápida, constante.

Foi uma influência que provavelmente não se exerceu só na técnica narrativa.
Certamente não seria o mesmo escritor, nem teria tratado os mesmos temas, se escrevesse a partir de um gabinete académico ou se enveredasse pela aventura de ser escritor profissional. O jornalismo levava-o para a rua, para a vida. E também encontrou na redação um ambiente de certa fraternidade, de inteligência, de preocupações políticas e criativas. De resto, ele sempre agradeceu muito o papel que os seus editores tiveram como mentores do seu próprio trabalho de escritor.

A vossa Fundação acaba de organizar um debate sobre a pós--verdade. O que já é possível dizer sobre isso, sendo um fenómeno tão recente?

É um fenómeno recente e, ao mesmo tempo, muito antigo. As mentiras sempre foram um recurso de habilidade e, às vezes, de perfídia, para ganhar o controlo da narrativa pública. Sabemos que, no fundo, a política e a vida social são conflitos de narrativas, e que muitas vezes os paradigmas de compreensão da realidade são definidos em função dos poderes do momento. A história da condição humana é uma história de luta pela verdade, contra a mentira, a manipulação, a versão fabricada, os rumores. Quando o jornalismo se institucionalizou como profissão, entre o séc. XIX e o séc. XX, colocou a si próprio um compromisso com a verdade. Mas sempre houve jornalismo ético e falso jornalismo. Hoje, o que temos de novo são aceleradores tecnológicos, a internet e as redes sociais, que permitem pôr mais rapidamente em evidência as contradições, as mentiras, embora também seja possível difundi-las bem mais depressa do que antes. E por trás das fake news há interesses muito poderosos.

De vários tipos, não é?

Como se viu, ainda há pouco a Rússia foi acusada de manipular as eleições presidenciais nos Estados Unidos. Mas há também quem faça das notícias falsas um negócio através das plataformas digitais, pois basta um clique para aumentar audiência e, assim, o lucro. E há ainda o caso da propaganda política, feita por consultores, que em vez de ser feita abertamente, pode transformar-se numa guerra suja, oculta, para atacar os opositores. Tudo isto coloca problemas ao jornalismo. Em economia há a lei de Gresham, segundo a qual a moeda barata expulsa a moeda de qualidade. O excesso de informação que circula nas redes sociais não é validada, qualificada, produzida profissionalmente. Muita é falsa ou fabricada. E, entretanto, as pessoas também já mudaram de hábitos na sua relação com os media.

Mudaram que hábitos?
Já não estão dependentes, como há 25 anos, da versão de um ou dois jornais que compravam, ou de uma rádio, ou de uma revista. Têm muito mais fontes. O desafio que se coloca ao jornalismo é distinguir-se do resto. O pior que lhe poderá acontecer será ficar sepultado por baixo da falsa informação, do excesso de notícias e de opinião. Tem de dar à audiência um valor de conteúdos que o diferencie claramente. É isso que terá de fazer o jornalismo profissional e organizado como negócio.

Que balanço faz a vossa Fundação da forma como os media norte-americanos estão a lidar com o fenómeno Trump?

Nós, na América Latina, temos regimes presidencialistas. E ao longo da nossa História têm sido uma constante figuras presidenciais fortes, algumas de recorte caudilhista. Ainda recentemente vimos o tipo de relação com a Imprensa que tinha Chávez, e agora Maduro, na Venezuela, Rafael Correa no Equador, ou os Kirchner na Argentina. Conhecemos bem essa espécie de confrontos entre Presidentes e os media.

No caso de Trump, nota-se claramente que o seu estilo colide com a independência dos media.
Mas vê-se também que pelo menos alguns dos media que são líderes converteram isto numa oportunidade. Aproveitaram para afirmar o seu papel de vigilância em relação ao poder e, ao mesmo tempo, para manter um ambiente de crítica aberto a toda a sociedade. Sou leitor do Washington Post e do New York Times e vejo que não se limitam a dar espaço às posições anti-Trump. Fica sempre também claro qual é a versão oficial, a republicana.

No vosso site criaram uma espécie de 'Quizz' para treinar os jornalistas a distinguir notícias falsas de verdadeiras. Até que ponto isso é possível?

Trata-se sobretudo de fomentar uma atitude de alerta. Criámos um consultório ético online, para resolver dúvidas de jornalistas de todas as partes do mundo e que pode ser consultado não só em espanhol, mas também em português. Aliás, quase metade dos trabalhos finalistas do nosso Prémio Gabriel García Márquez de Jornalismo são em português, sobretudo do Brasil. A ética, através da verificação, é algo que interessa a todos. Um dos projetos que temos para este ano é abrir esta espécie de exercícios de reflexões a todos os cidadãos.

O vosso consultório ético aborda, por exemplo, o terrorismo. Critica a divulgação de imagens de feridos, de pessoas a correr, do som de ambulâncias e até dos meios usados pelos terroristas para iludir a segurança. O que resta então para noticiar, em caso de atentado?

Além de vários convidados sobre esse tema, temos um perito principal, jornalista e professor respeitadíssimo. Abrimos o debate com ele, mas não quer dizer que o seu texto represente a posição oficial da Fundação. Cada caso pode prestar-se a diferentes interpretações. O que tentamos promover é o cuidado, o contrário da ligeireza no tratamento do tema. Quem ler atentamente as recomendações, vê que são apenas orientações. Mas temos a noção de que este consultório chega a jornalistas que estão praticamente sozinhos, seja na sua redação ou na província, e que muitas vezes são pessoas expostas a ameaças, a riscos, a situações complicadas. Procuramos ser úteis. O mais importante é criarmos o sentido de responsabilidade, mas não pretendemos dar uma resposta ortodoxa.

Que balanço faz de um fenómeno como o Wikileaks?
Mostrou-nos o lado B, o lado obscuro, ao trazer à luz uma grande quantidade informação tida por confidencial. O poder maneja-se com informação. E, ao mostrar a que foi ocultada, deixou claro que isto nem sempre é um jogo inocente. A sociedade deve estar cada vez mais consciente de que há interesses, há espionagem, há manipulação, há redes ocultas. Nesse sentido, quem serviu de veículo de informação, a Wikileaks, assim como quem foi fonte, Chelsea Manning, entretanto indultada, prestaram um serviço à sociedade.

Vê a Wikileaks como um caso de serviço público, portanto?

Claro. E para o jornalismo representou uma oportunidade, já que foi fornecido o material em bruto. Mostrou que jornalismo não é apenas libertar informação. Há que valorizá-la, organizá-la, hierarquizá-la e interpretá-la. Mas a Wikileaks como organização acabou por se converter também numa espécie de ator político, em função de interesses, sobretudo do seu fundador, Julian Assange. Por isso, tem méritos e também aspetos questionáveis. O balanço é que o acesso à informação deve ter um valor jurídico, deve considerar-se um direito humano e torná-lo realidade. Já no caso dos Panama Papers a divulgação foi mais ordenada.

Partiu de um consórcio de jornalistas.

Tratou-se de uma modalidade de jornalismo em colaboração, uma aliança mundial de jornalistas de investigação e houve uma política editorial partilhada de forma muito clara. Tentou mostrar-se como funcionam os paraísos fiscais e dar a conhecer casos de fraudes. Nesse sentido, creio que foi uma experiência mais enriquecedora. São duas partes de um processo do nosso tempo que há que valorizar positivamente. Mas também não podemos iludir-nos e pensar que a solução agora é trazer tudo à luz do dia.

E quanto a resultados, o que achou dos Panama Papers?

Evidentemente que, nalgumas partes do mundo, teve impacto político e noutras não. Isso dependeu de cada país. O importante é que se mostrou o modus operandi das finanças ocultas, que muitas vezes estão associadas à corrupção, à fuga aos impostos. 
O Estado, que tem o poder de mudar as coisas, parece disposto a manter esses paraísos fiscais. Mas hoje temos uma geração de pessoas mais esclarecidas. E as eleições em cada país mostrarão até que ponto os cidadãos querem eleger pessoas mais comprometidas com a transparência, com a honestidade.

Apesar de todos estes fenómenos, continua a não se ver uma saída para a crise da Imprensa.

O jornalismo nasceu associado à luta política e à informação comercial. Depois, profissionalizou-se e converteu-se em verdadeiro serviço público para a democracia. A internet pôs a circular muito mais informação, muito mais opinião, mas a publicidade passou a ser mais controlada pelas plataformas digitais do que pelos media. Mudaram as regras. O que fazia as pessoas comprarem os jornais era a informação, fosse a noticiosa ou a opinativa. Hoje, tudo isso se partilha online. A economia dos media mudou. Nós, na Fundação, promovemos umas 150 iniciativas por ano, algumas presenciais, como workshops e seminários. Criámos o prémio de jornalismo e estamos sempre a acompanhar as tendências e a interagir.

E que tendências vão registando?

Tudo o que sentimos é que estamos numa época de readaptação, com o surgimento de novas formas de jornalismo e também de novos projetos jornalísticos, que muitas vezes têm de se viabilizar economicamente de modo pouco convencional. Assim como vão surgindo alianças entre media e outras instituições, como universidades e fundações. É uma época de experimentação de fórmulas, de procura de novas narrativas e nichos. Agrada-nos muito poder premiar a inovação jornalística. A atitude correta é estarmos abertos à inovação. Ao mesmo tempo, devemos tentar manter os terrenos conquistados, defender a existências da empresa jornalística tradicional, a sua presença no mercado, assim como o trabalho digno dos jornalistas.

Os grandes diários têm vindo a desaparecer.

E outros a nascer.

Há quem acredite que a solução dos diários estará em edições em papel só ao fim de semana. Nos outros dias, só estarão online. Que lhe parece?
As pessoas leem hoje muito mais jornais. Só que não os leem em papel, mas nas plataformas digitais. Infelizmente, essa maior circulação não se traduz em lucro. É uma crise de adaptação. O papel que suja as mãos de tinta continua a ter a preferência dos leitores mais tradicionalistas, mas a maioria lê online. Temos de aceitar e defender-nos nos novos cenários.

Fonte: Entrevista publicada na VISÃO 1271 de 13 de julho

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Quem são os burgueses?


Às vezes aqui e ali ouvimos expressões como “burgueses” ou “a burguesia”. Os “burgos” eram vilas na Idade Média, locais de muito comércio. Os burgueses, que mais lidavam com compras e vendas, acabaram depois constituindo um grupo extremamente influente: quanto mais a Europa desmanchava relações tradicionais para reconstruir as estruturas da sociedade sobre o dinheiro, fica claro que mais dinheiro significa mais poder.

A burguesia não viu a mudança de braços cruzados; foi antes uma força ativa nessa transformação que os deixou no topo da pirâmide social. Mas todo esse cenário histórico nos ajuda hoje? Quem são e como vivem os burgueses de nosso tempo? Seriam eles os muito ricos? Os donos dos famosos “meios de produção”? Quem dá, afinal, corpo à máscara flutuante que é esse conceito fantasmagórico?

A burguesia, na época em que foi caracterizada por Marx como classe social, exibia uma série de características marcantes. Burgueses são voltados para a eficiência – pragmáticos, quando vão em busca de conhecimento o fazem porque ele é útil. São individualistas, tanto na prática quanto na filosofia. Daí vêm a mitologia, com os espíritos básicos como trabalho, valor, competição e recompensa, que eles ajudaram a popularizar. Em seus mitos também podemos incluir as ideias de progresso e desenvolvimento, grande divindades burguesas.

Naquele processo de derrubar tradições que a europa sofria, o burguês foi se tornando o padrão cultural de excelência – substituindo condes, lordes e duques. Todos querem ser ricos, felizes e prósperos como os burgueses, e isso é, ainda mais em nossos tempos de mídia de massa, internet, globalização, um fenômeno fundamentalmente cultural. O pensamento burguês, quando adotado por toda sorte de pessoas, mostra que não importa tanto quem é o burguês, mas sim como pensa o burguês, porque então podemos enxergar como esses valores direcionam nossa visão e entender as consequências desse jeito de pensar.

O que acontece com o pragmatismo burguês quando ele vira grande valor social? A valorização da técnica, mas também do oblívio: ter mais pessoas que saibam fazer coisas, mas que não necessariamente reflitam sobre o que fazem – pra quê, não é mesmo? O individualismo relaciona-se com a competitividade para descortinar uma sociedade que vê o homem como mera máquina buscadora de lucro – aquela que o burguês instituiu como explicação de dicionário para o verbete “humano”. O burguês tem problemas para confiar nas pessoas, e encontra nos outros – que nasceram dentro de um sistema que estimula em nós esse jeito burguês de ser – razão para tanto. Mas o pior é a combinação disso com a vontade da pureza absoluta, adágio do progresso, que pensadores como Nietzsche e Foucault debateram. 

A principal característica do pensamento burguês contemporâneo é a vontade de tirar da vida os obstáculos – de maneira mais prática e rápida possível – para que possamos todos dar continuidade à rotina normal, cada um em seu papel (o chefe e o trabalhador, cada qual segundo seu mérito). 

Assaltos, estupros, homicídios? Pena de morte. Jovens perdendo a vida nos meandros do tráfico de drogas e todas as suas ramificações? Entupam as cadeias. Assaltos? Botem o exército nas ruas. Corrupção para tudo quanto é lado? Ditadura militar. O Brasil está ruim? Eu, que tenho dinheiro, vou morar fora. Soluções simplistas – genuínas não-soluções, onde as pessoas se esforçam para se convencer de que os problemas sociais não são problemas nossos – ou que pelo menos podem ser muito facilmente resolvidos, de forma que eles podem se tornar não-nossos, e é por pura incompetência e podridão humana das autoridades que as coisas não magicamente se encaixam no lugar.
Essas opiniões estão na boca de extremistas nos jornais, mas podiam estar na minha e na sua. Não ser burguês não é vender tudo e ser um mendigo filósofo de Augusto Cury, assim como ser um mendigo filósofo não o impede de filosofar como um burguês. Rejeitar o pensamento burguês é cuidar para pensar além, querer além e viver além de um estereótipo muito, muito velho – mas também muito, muito vivo.
Este foi um texto publicado como coluna do jornal Folha de Santa Catarina.